sábado, 4 de setembro de 2010

Timidez


Descendo as escadas para o pátio da escola, ele segue calado e apertando os dedos. Já se passou o ano quase todo, e nada. E o ano anterior já havia sido assim, a mesma aflição, o mesmo drama. Olha, disfarça, olha, disfarça, abaixa a cabeça. Claro que ela já havia notado, e via-se que também tinha interesse, mas... Talvez o fato mais duro na vida do menino tímido é que os outros também acabam se intimidando com ele. Aí trava tudo...

A cantina estava com uma fila enorme, foi bom ele ter desistido e ido assistir o jogo dos colegas, iria demorar o intervalo todo. Só jogava durante a aula de Educação Física, sob a tutela do professor, apesar de gostar muito de praticar esportes. E hoje as duas quadras estavam ocupadas, as meninas jogavam voleibol na primeira e a turma habitual fazia seus gols naquela mais distante. Até que elas não jogavam mal...

O professor de matemática também observava a partida, do lado de fora da quadra. Esse parecia que havia notado o menino observando diariamente a colega, sem tomar uma iniciativa. Com acenos, eles se cumprimentam, e o professor acena para mais alguém no fundo da quadra. Puxa! Ela estava lá sentada também e ele nem havia notado! Sozinha, assistindo a partida como ele. Talvez seja hora de tentar algo pela primeira vez, e pensar isso já é suficiente para acelerar os batimentos. O intervalo já deve estar acabando, é melhor deixar pra lá... Mas quando virá outra oportunidade? Ninguém sabe, talvez só no ano que vem, se ela ainda estiver disponível. Então é melhor tentar...

O menino olha para um lado, para o outro, para trás... O professor já se foi. Daqui a pouco ele também terá que subir. Então se levanta e vai caminhando em direção a ela vagarosamente, mas não tranquilamente, meio que fingindo observar a partida. Uma música começa a tocar em sua mente, nessas horas a cabeça arranja logo uma trilha sonora. Após pisar no pé de um garoto e se desculpar, ela já está a pouca distância, o momento é crítico. Ainda dá tempo de desistir. Ela o viu, e agora? Vai ter que ir. E chegando perto, coloca a mão sobre seu ombro, para que ela fale com ele...
- Oi!
- Olá... Hãn... Que horas são?
- Faltam dois minutos para dez horas.
- Hum, já? Tudo bem... Tchau então.
- Tchau tchau.

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